Cartão de identidade: Xylella fastidiosa

Nome Científico:

Xylella fastidiosa (Wells et al., 1987)

Nome comum

Doença de Pierce da videira; clorose variegada dos citrinos; doença falsa do pessegueiro; escaldão das folhas da ameixeira, queimada foliar na oliveira.

Árvore taxonómica

Reino: Bactérias
Filo: Proteobactérias
Classe: Gammaproteobactérias
Ordem: Xanthomonadales
Família: Xanthomonadaceae
Género: Xylella
Espécie: Xylella fastidiosa

Origem

América tropical e subtropical.
Por ter um amplo grupo de insetos vetores foi observada na Ásia e Europa mas as vias de entrada são ainda desconhecidas.

Ciclo biológico

A Xylella fastidiosa é uma bactéria gram-negativa em forma de bastonete com paredes celulares onduladas. É estritamente aeróbica (micro aerofílico), não flagelada, não forma esporos e mede 0,1-0,5 x 1-5 µm. Quando à sua fisiologia pode ser lisa ou rugosa, opalescente e circular.
A espécie inclui várias estirpes de crescimento lento em meios de cultura a 26-28 ºC em pH entre 6.5 -6.9. É uma bactéria vascular nos vasos do xilema desde as folhas, caules e raízes. Esta doença é vetorizada por insetos que quando se alimentam da seiva bruta (picam e sugam), provocando uma via de entrada para a bactéria na planta. Através desta via de entrada os vasos condutores da planta são bloqueados por agregados bacterianos, que se multiplicam produzindo um exo polissacáridos (EPS) bloqueando não só a água, assim como seiva bruta (minerais).
A proliferação desta bactéria depende da atividade respiratória da planta, sendo que o desenvolvimento se torna maior em plantas com maiores taxas de transpiração. A bactéria permanece nas paredes do aparelho digestivo do inseto, onde não provoca qualquer tipo de dano no seu hospedeiro.
As estripes foram divididas em cinco subespécies: X. fastidiosa subsp piercei (que inclui estripes das videiras), X. fastidiosa subsp. Sandyi (oloendro), X. fastidiosa subsp multiplex (vários hospedeiros), X. fastidiosa subsp pauca (que inclui ameixeira e citrinos) e a X. fastidiosa subsp. Tashke que foi identificada numa árvore ornamental.

Relação inseto-doença

Devido à relação inseto-doença, Xylella fastidiosa tem uma grande capacidade colocar em causa a sobrevivência do seu hospedeiro. Apesar de não haver prejuízos nos ataques de Cicadella viridis (cicadelídeos) ou Cercopideos (Homalodisca vitripennisna) nas videiras no território europeu, na América do Norte (Califórnia) a produção de vinho ficou comprometida devido aos insetos vetores.
Esta relação mostra que a bactéria pode-se instalar em ambientes mediterrâneos como o sul da Europa e nordeste americano, apesar da sua origem ser de regiões subtropicais como o sudeste dos EUA.

Vetores

De uma forma generalizada todos os insetos picadores sugadores do xilema são vetores da doença como o caso cicadelídeos, afroforídeos e cercopídeos. Quando estes se alimentam, a bateria fixa-se à armadura bucal sendo posteriormente libertada quando o inseto volta a picar e sugar o xilema.
A bactéria permanece nas paredes do aparelho digestivo do inseto, mas não circula na hemolinfa nem causa danos no hospedeiro.
A alimentação do inseto não causa danos visíveis, uma vez que, quando se alimentam são minuciosos na sua ação e consumem a seiva bruta num volume superior ao seu corpo.
A maioria dos cicadelídeos quando se alimentam do xilema produzem um excremento aguado que quando seca torna-se num pó fino esbranquiçado (brocossomos). Quanto ás ninfas dos cercopídeos, estes formam bolhas persistentes (espuma) que rodeia o corpo do inseto conferindo proteção contra os inimigos naturais.

A Cicadella viridis (cicadelídeos), Philaenus spumarius (Cercopídeos) atacam as videiras no território europeu. Já no continente americano as videiras ficam comprometidas devido a subfamília dos cicadelídeos (Carneocephala fulgida, Draeculacephala minerva e Graphocephala atropunctata). No pessegueiro são conhecidos Homalodisca vitripennis, H. insolita, Oncometopia orbona, Graphocephala versuta e Cuerna costalis.
Para combater a doença é fundamental entender a biologia dos vetores.

Figura 1. Draeculacephala minerva e Graphocephala atropunctata (Fonte: EPPO)

Sintomas

Esta doença tem um maior potencial em instala-se em flora natural espontânea (como algumas gramíneas) do que as plantas produzidas. Por outro lado, o fator temperatura tem se revelado num ponto chave no seu controlo, uma vez que, nas regiões onde as temperaturas são mais baixas menor é o sucesso para o estabelecimento da X. fastidiosa.

Na videira (doença de Pierce) os sintomas são a murchidão das folhas, com distribuição irregular e “dieback”, ilhas de tecido saudável e separação da folha do pecíolo.

Figura 2. Doença de videira de Pierce (Fonte: EPPO)

Os sintomas da Clorose Variegada dos Citrinos (CVC) são caracterizados pelo aparecimento de manchas cloróticas amareladas de bordo irregulares, semelhantes à deficiência de zinco.
A superfície inferior mostra-se ligeiramente levantada e acastanhada com manchas necróticas em folhas adultas em ramos isolados, começando pela parte mediana da copa e expandindo-se por toda a planta. Em estado avançado da doença toda a planta produz frutos ananicados.

Figura 3. Clorose variegada dos citrinos (frutos doentes amarelos à esquerda,  frutos verdes saudáveis ​​à direita) (Fonte: EPPO)

Em amendoeiras a doença provocada por X. fastidiosa é Almond Leaf Scorch disease – ALS. A doença provoca padrões irregulares de necrose da folha causando queimadura foliares que conduzem a uma clara diminuição da produtividade, uma mortalidade progressiva a partir dos ramos apicais e, finalmente, morte de árvores afetadas com ALS.

Figura 4. Sintomas na amendoeiras (Fonte: EPPO)

No pessegueiro a doença é denominada por Phony Peach Disease (PPD) e apresenta sintomas morfológicos externos característicos como ramos com entrenós mais curtos, comprimento dos pecíolos e da área foliar também menores e, num estágio mais avançado da infeção, ocorre senescência das folhas mais maduras, ficando o ramo desprovido de folhas ou com pequeno número de folhas reduzidas no seu ápice.

Figura 5. Sintomas no pessegueiro (Fonte: EPPO)

Os sintomas da doença – Oleander leaf scorch – OLS em oloendros são amarelecimento das folhas que é seguido pela característica queimada e necrose da zona apical das folhas.

Figura 6. Sintomas em oleandro de Nerium (Fonte: EPPO)

Em oliveira (Olvie Quick Decline Syndrome) aparecem queimaduras foliares e um declínio rápido de oliveiras envelhecidas, com morte progressiva da zona apical para a raiz.

Figura 7. Sintomas na oliveira (Fonte: EPPO)

Hospedeiros

Entre as mais de 150 espécies de plantas hospedeiras destacam-se Oliveira, Amendoeira, Cerejeira, Citrinos, Videira, Quercus. Nas ornamentais herbáceas, arbustos e árvores esta bateria tem como hospedeiros: Nerium oleander, Polygalla myrtipholia, Spartium junceum, Platanus, Acer entre outras.

Meio de entrada

Em 2013 a X. fastidiosa foi identificada na Europa, causando danos aos olivais e plantas ornamentais em Itália.
Os insetos infetados podem ser facilmente transportados em estado de ninfas nas folhas ou nos frutos. A bactéria não é transmitida através dos ovos dos seus vetores mas as ninfas quando se alimentam de um planta infetada obtém a doença.

Meios de Proteção

A Organização Europeia e Mediterrânea para a Proteção de Plantas (EPPO) considera a X. fastidiosa como uma praga de quarentena A1 devido à sua perigosidade.

Ainda não existem meios de luta direta específicos para o controlo desta bactéria, mas o combate a esta doença passa essencialmente por medidas preventivas como o controlo fitossanitário mais apertado de plantas vindas de zonas afetadas e o controlo de contaminação cruzada com plantas afetadas.

A DGAV elaborou um Plano de Contingência onde se detalham as medidas em vigor, das quais se destacam as seguintes relativas à circulação na UE: · obrigatória a receção e/ou expedição das plantas da “lista da Comissão” com passaporte ­fitossanitário seja qual for a sua origem; · obrigatória a comunicação da aquisição de plantas hospedeiras oriundas de zonas demarcadas.

Paralelamente também criou um plano de requisitos técnicos para produção e comercialização de plantas especificadas hospedeiras de Xylella fastidiosa em local livre.
Recentemente delineou área demarcada de Xylella fastidiosa em Portugal destacando-se a zona infetada e a zona tampão dos concelhos de Gondomar e Vila Nova de Gaia.

Figura 8. Área Demarcada de Xylella fastidiosa – Zonas Infetadas + Zona Tampão (área circundante de 5 km de raio) (Fonte: DGAV)

A prevenção é fundamental para evitar a introdução no nosso território A deteção precoce é determinante para o sucesso da erradicação de qualquer foco que ocorra no nosso território.

Apoios

O Ministério da Agricultura Florestas e Desenvolvimento Rural abriu até 30 de abril um concurso destinado a apoiar investimentos em viveiros para prevenção da contaminação pela bactéria da Xylella fastidiosa.
Com um montante global disponível de dois milhões de euros, o concurso apoia a construção de estruturas de proteção em viveiros de plantas de espécies ornamentais, de fruteiras e de videiras suscetíveis à Xylella fastidiosa.
As candidaturas devem ter como objetivo o reforço da viabilidade dos viveiros agrícolas existentes e em atividade para a produção de plantas suscetíveis à bactéria, através da implementação de sistemas de proteção física completa. “Os projetos devem ainda assegurar a compatibilidade dos investimentos com as normas de prevenção, proteção e controlo fitossanitário em vigor e promover a utilização do tratamento por água quente no caso de plantas vitícolas”.

As candidaturas podem ser apresentadas através do portal PDR-2020 em www.pdr-2020.pt e do portal PORTUGAL-2020 em www.pt-2020.pt.

Fontes

https://www.eppo.int/ACTIVITIES/plant_quarantine/shortnotes_qps/shortnotes_xylella
http://www.dgv.min-agricultura.pt/portal/page/portal/DGV/genericos?generico=14076974&cboui=14076974
https://agrcanelas.edu.pt/wp-content/uploads/2019/01/folheto_Xylella_Nov.pdf
https://lifestyle.sapo.pt/saude/noticias-saude/artigos/xylella-fastidiosa-ameaca-vegetais-e-legumes-governo-vai-apoiar-agricultores

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