Intolerância alimentar: O diagnóstico

Em finais de 2015 começaram os primeiros enjoos e a má disposição após as refeições. Era vésperas de natal e pensei que tudo seria nervosismo por mais um ano estar a terminar, mas não. Todas as semanas acordava com tonturas, enxaquecas (nem se quer sabia o que era isso), vómitos e as idas ao hospital tornaram-se frequentes. Passava horas a soro a desesperar por uma solução. Cada dia que passava mais vomitava e o mal-estar agravava-se. As primeiras manchas apareciam na pele e o peso diminuía com o passar dos dias. Estava na altura de procurar ajuda médica especializada, já que os médicos das urgências pouco podiam fazer. Somaram-se os questionários médicos e as várias hipóteses do que poderia estar na origem.

Em primeiro lugar e o primeiro passo começou pela alimentação: uma dieta pobre em lactose, enlatados e comidas processadas: o verdadeiro regime de hospital. Só cevadas, pão integral, cozidos e grelhados, legumes (saladas ou sopas) e fruta. Nada de queijos, leite, café ou chocolates.  Comida simples e caseira.

De seguida, comecei a ter algumas melhorias apesar dos episódios de vómitos e diarreias terem intervalos mais longos. Até que a médica de família recomendou fazer análises de rotina e o teste de intolerância alimentar. Resultado: Intolerante à lactose e alguns trigos. Esta notícia era como uma bomba porque o leite sempre foi das bebidas que ingeri de preferência em todos os lanches e pequenos almoços. Leite simples, leite com chocolate, leite com cereais etc. Ter de deixar de o beber em prol da minha saúde foi um tormento. Ainda por cima no mês de natal.

Dezembro mês de todos os excessos à mesa e eu não poderia comer nada. Tudo levava leite e os trigos (aletria, leite creme, pão de ló, bolo rei…)

Mas afinal o que posso eu comer sem que me pare a digestão? Imaginem o que é entrar numa festa ou restaurante e não poder comer nada.

Esta foi a 2º etapa mais longa. Mas a resposta estava na minha formação. Em Engenharia Agronómica temos unidades curriculares de agroalimentar, agroindústrias e tecnologias da qualidade e segurança alimentar.

Primeiro passo: saber realmente o que era a lactose? Onde está? Em que derivados? Qual é a percentagem de leite que posso mesmo beber ou ingerir?

Há muitos produtos alimentares que na sua constituição contam com vestígios de leite. E o queijo? Iogurtes? E os trigos? Massas, bolos bolachas?

A minha solução foi esquecer a internet que só me confundia e deprimia e focar-me em todos os apontamentos de agroalimentar. Teria de substituir o leite por bebidas de soja, arroz e amêndoas. Mas e o sabor? Foi um processo gradual. Há marcas em que o sabor herbário é mais intenso por isso foi por tentativas. Até que finalmente cheguei a marca que me adaptava. Então passei para bebidas e sabores.

Compreendi o que os rótulos diziam. O que eram vestígios e a maior percentagem, ou seja, passava horas mo supermercado a ler rótulos e fazendo uma lista do que podia ou não comer. Re-li de forma meticulosa como eram feitos os alimentos minimamente processados aos processados.

Investiguei várias substâncias químicas e os seus efeitos no nosso organismo. Diminui drasticamente a minha lista de compras, mas aumentou a despesa, porque estes produtos são em média mais caros.

Só nesta etapa já conseguem imaginar o que eu já não podia comer: Pizzas, hambúrgueres, francesinhas que toda gente adora mas que não poderia comer. Até as bebidas de fruta, salsichas e bolachas que continham leite.

E quando vamos almoçar fora ou a casa de alguém?

Olhar para o menu e pensar: Não posso comer nada.

Neste caso passei por um processo de educação alimentar onde passei a selecionar sítios com menus para intolerantes ou comer mais vezes em casa.

No entanto também houve uma mudança em casa nomeadamente no jardim onde reestruturei a horta com legumes da época para abastecer a despensa. E para ter a fruta da época plantei algumas fruteiras de forma a tirar o máximo de rentabilidade. Optar por uma dieta mediterrânea carnes e peixe fresco com saladas de várias variedades de alfaces, tomate, orégãos, cebola e milho. As sopas, não podiam faltar antes da refeição com legumes da horta. Grão de bico em vez de batata, courgette em vez de massa, couve-flor em vez de arroz. E para que não falte nada na despensa há que aproveitar cada m2 disponível no quintal. E claro quando há fartura congelam-se os legumes ou reinventa-se receitas de molhos, compotas e preparados.

Não é preciso ter uma grande área para ter uma horta. Por vezes em áreas mais pequenas e organizadas por famílias conseguimos ter uma horta arranjadinha.

Não esquecendo as rotações e consociações. Onde era feijão, lentilhas e amendoins colocar alfaces e tomates. Onde estavam cebolas ou alhos rodar por cenouras e, claro as plantas aromáticas colocá-las de bordadura que para além de protegem contra insetos indesejáveis são uma excelente opção para temperos substituindo o sal ou o açúcar.

É certo que passo muitas mais horas a pensar no que vou comer, mas por casualidade a solução está na minha formação. Mas nem sempre é fácil quando o diagnostico médico nos coloca à prova, dando origem a muitas horas de pesquisa. Bem mais que as horas que estive num corredor do hospital sem saber o que realmente tinha.

Ter uma horta, animais “de produção caseira”, comer menos fora, comer o que é feito em casa, mais legumes, mais sopas, mais peixe e carnes brancas levaram à minha recuperação gastrointestinal. E isto tem um nome: educação alimentar.

O caminho foi longo com várias consultas médicas e diários de alimentação, mas quando olho para a minha horta penso: ali está a minha despensa, farmácia e saúde. Saber o que estamos a comer é maravilhoso, mas comer o que produzimos é divinal. Por isso que nas feiras agrícolas sou a mais curiosa de todos os seres. Sempre a procura de novos produtos e produtos nacionais porque é de saúde que estamos a tratar e agronomia faz nos bem.

Por isso partilho a minha história como intolerante alimentar na esperança de poder ajudar quem também recebe este diagnóstico. A solução passa por hábitos saudáveis: dormir mais, mexer mais e saber o que estamos a comer.

Quando a intolerância está controlada podemos muito de vez em quando comer em proporções pequenas aquilo que o nosso corpo não tolera. Confesso que há alturas que não consigo resistir ao queijo da serra. Como pouco, mas porque faço dieta rigorosa e sei que a partir daquele pequeno quadrado tenho de redobrar o regime. Lá está, mas eu tenho intolerância e tive de aprender lidar com ela. Não faço um drama à mesa. Simplesmente controlo a vontade, espelho e balança para que não volte tudo a estaca zero. Às terríveis idas ao hospital e a incerteza.

Por isso para quem não tem este tipo de intolerâncias recomendo sempre não seguir modas, teorias fundamentalistas e comer tudo sem restrições, mas de forma equilibrada. O corpo agradeço. Mas no meu caso como de milhares de pessoas há um processo de adaptação alimentar.

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